O Rugby Feminino no Brasil vem crescendo primordialmente nos 7’s a Side, modalidade que estará presente nos jogos olímpicos na cidade do Rio de Janeiro em 2016. A Seleção Feminina do Brasil coleciona medalhas no Sulamericano, onde atingiu recentemente o Hexacampeonato. Na América do Sul somos favoritos porém no cenário global obtivemos a 6a colocação no Mundial Universitário e a 10a posição no Campeonato Mundial de 7's no ano de 2009. Além disso a Seleção Feminina a partir de 2010 vem recebendo um apoio financeiro do COB para o seu desenvolvimento visando as olimpíadas de 2016 e a melhoria da qualidade do rugby feminino no Brasil que tem tudo para estar entre os melhores do mundo.
O Rugby de Calcinha (RdC) tem a honra de hoje poder falar um pouco com duas das jogadoras da Seleção Feminina: Júlia Sardá a nossa Capitã e Paula Ishibashi considerada a melhor jogadora do Sulamericano e uma das mais experientes da nossa Seleção. As perguntas foram elaboradas pela equipe RdC e também por meninas que participaram através do nosso blog, que por sinal foi muito interessante pois não houveram perguntas repetidas. E vamos às perguntas!
[Renatinha, Recife Rugby e RdC] Gostaria de saber como vocês conheceram o Rugby, qual o clube que jogam e também a estrutura oferecida pelos clubes que vocês treinam hoje? O que vocês diriam para as meninas no Nordeste do Brasil que não possuem estrutura nem apoio?
[Júlia] Eu fui convidada por uma colega da universidade a participar de um treino depois que ela me ouviu reclamando (durante os jogos internos da educação física) do jogo de basquete, que tudo era falta e que eu gostava de esportes com mais contato. Ela me disse que o rugby era o esporte ideal. Ela estava certa, fui a um treino e me apaixonei pela modalidade (mesmo saindo toda dolorida...era treino de tackle).
O meu clube não tem sede, e não temos um campo. Treinamos “oficialmente” em um campo de uma associação de moradores (Lagoa da Conceição), mas o time feminino treino durante a semana em um gramado na UFSC e nos finais de semana no campo da Lagoa.
O que eu posso dizer para as meninas do Nordeste é que já treinei em condições bem precárias e sei da luta da diretoria do meu clube para conseguirmos apoio. Não conheço as condições exatas de vocês, mas continuem batalhando por espaço e continuem lutando para praticar o esporte que vocês tanto gostam....vale a pena.
[Nivia Boz, Goiânia Rugby] Como é a rotina de treinos? Carga-horária, tipo de treino e atividades complementares (ex.: musculação, fisioterapia)
[Júlia] No meu clube (Desterro Rúgby em Santa Catarina) eu treino segundas e quartas do meio dia até as 13h30min e sábado de manhã. Eu sempre fiz treino físico, antes eu montava meu treino (sou formada em Ed. Física), mas atualmente sigo os treinos físicos enviados pelos preparadores da seleção. A musculação é feita 3-4 vezes por semana e temos treinos de corrida 2-3 vezes por semana. A quantidade de treinos depende do período de treinamento e também da disponibilidade de cada jogadora. Eu faço pelo menos 3 dias de musculação e 2 de corrida. Os treinos técnicos/ táticos da seleção são realizados 1 final de semana por mês.
Faço fisioterapia só quando estou com alguma lesão.
[Nivia Boz, Goiânia Rugby] Quais são as principais diferenças entre os treinos realizados em seus clubes e os treinos da seleção?
[Júlia] Para mim, a principal diferença é a estrutura e a quantidade de meninas. Outro fator importante é que na seleção todas estão com o mesmo objetivo, já no clube nem sempre os objetivos são os mesmos. A cobrança na seleção é muito maior e também o desgaste físico.
[Teresa, RdC] Vocês também sentem preguiça pra treinar? Onde treinam as meninas comparecem sempre? Ela perguntou pois alega que no Nordeste as meninas faltam muito.
[Júlia] Para treinar rugby eu nunca estou com preguiça, e olha que aqui no sul o inverno está rigoroso. Já nos treinos físicos às vezes dá vontade de não fazer, mas daí eu penso nos meus objetivos e vou para a musculação. É tudo uma questão de disciplina também, no rugby 7´s o preparo físico conta muito, se você tem essa consciência, mesmo com preguiça você faz o treino.
No meu time temos meninas que comparecem sempre e outras nem tanto. Algumas só podem treinar aos sábados por causa do trabalho. Eu sou uma pessoa que cobra a presença, porque só treinando vamos evoluir. Mas passei a entender que as pessoas têm objetivos diferentes e dão importância diferente ao rugby.
[Maira, Rugby Potiguar] Gostaria de saber qual é a importância que elas vêem em jogar pela seleção brasileira e em representar as mulheres brasileiras neste esporte?
[Júlia] Representar o Brasil era um sonho de criança, tentei durante anos com o atletismo, mas não consegui. Depois entrei no rugby e tive a oportunidade. Nunca vou esquecer a emoção de vestir pela primeira vez a amarelinha. É indescritível. Sinto muito orgulho de representar meu país. Quando viajamos para jogar pela seleção estamos representando não só as mulheres, e sim o rugby do Brasil, estamos mostrando que no Brasil existe rugby, rugby de qualidade. Todas as meninas da seleção tem consciência disso, por isso quando entramos em campo damos 100%.
[Karlla, RdC] Vocês já praticaram Rugby Union (XV de cada lado?) Vocês acham que esta modalidade teria algum sucesso no Brasil e poderia se desenvolver?
[Júlia] Eu joguei durante 15 meses na Irlanda e adorei. Para jogar rugby XV cada time precisa de, no mínimo, 20 jogadoras. Em termos de clube eu acho difícil a modalidade se desenvolver no Brasil, mas um projeto de seleções regionais de XV e quem sabe seleção de XV acredito que pode dar certo. A seleção brasileira de XV que foi para a Holanda, perdeu o amistoso por 10x00. Um placar muito favorável ao Brasil, se levarmos em consideração que a Holanda joga há anos e está no Europeu A e o Brasil nunca tinha jogado.
[Maira, Rugby Potiguar] Na visão de vocês existe um tipo definido de mulher pra jogar rugby?
[Júlia] Não acredito. Claro que o sevens é um jogo rápido, que exige um bom preparo físico, mas acredito que todas podem jogar, e o principal, todas podem evoluir.
[Maira, Rugby Potiguar] Como foi a experiência de jogar o campeonato universitário em Portugal?
[Júlia] Eu sempre sonhei em ser atleta e chegar a um mundial é o ponto máximo de qualquer atleta então, acima de tudo, eu me senti realizada.
A experiência foi ótima. Fizemos alguns bons jogos. O importante para mim é que apresentamos um bom nível, fazendo jogos disputado com Rússia e Grã-Bretanha. Se testar em uma competição fora da América do Sul é sempre produtivo. Aqui sempre somos favoritas, mas fora o jogo é mais veloz e com mais potência nos contatos. É jogando em um nível mais alto que se evolui.
[Maira, Rugby Potiguar] Qual é o conselho que elas dão para as praticantes de rugby em todo Brasil?
[Júlia] Primeiramente, respeitem e conheçam o esporte. O “espírito do rugby” é algo que deve ser repassado e desenvolvido. No mais, se divirtam jogando.
[Fernandinha, Goiânia Rugby e RdC] Pergunta se o técnico e a comissão técnica ficam disponível todo o tempo, diferente do time do GRC feminino, que tem que dividir o técnico e a prioridade nunca é o feminino.
[Júlia] Na seleção eles estão sempre a disposição, tanto treinadores quanto preparadores físicos e fisioterapeuta. No meu clube o meu treinador é jogador do adulto, mas é treinador só do feminino. Ele é muito empenhado em preparar e passar os treinos. Se precisar deixar de treinar para nos treinar (acho que) ele deixa. Ele é um estudioso do rugby e sempre procura nos desenvolver ainda mais. Então eu não tenho do que reclamar.
[Karlla, RdC] Como vocês viram a mudança da ABR para CBRu do ponto de vista estrutural e financeiro?
[Júlia] Eu sempre fiquei por fora da “política do rugby brasileiro”, então não me sinto capacitada para responder. O que posso falar é que neste ano o apoio financeiro para treinos e viagens está bem melhor e a estrutura para treinamentos também.
[Renatinha, Recife Rugby e RdC] Como vocês imaginam o rugby aqui no Brasil até 2016 e depois?
[Júlia] Vejo com bons olhos o futuro do rugby no Brasil. O retorno dele para a olimpíada facilita a busca de recursos e a visibilidade. Sonho e acredito no crescimento do esporte.
[Karlla, RdC] Quais o valores que mais marcaram vocês na Seleção e qual recado dariam para as meninas que estão em dúvida se jogam ou não Rugby?
[Júlia] A seleção tem um grupo de meninas apaixonadas pelo rugby e que fazem de tudo para representar bem o Brasil. Acredito que a determinação e a superação são marcas da seleção.
Eu diria para as meninas que estão em dúvida darem uma chance ao rugby, vocês vão se surpreender.
Nós do Rugby de Calcinha agradecemos a oportunidade em saber um pouco sobre as meninas que hoje representam tão bem a camisa da nossa Seleção e que tanto nos orgulham. Obrigada Júlia e Paulinha.
Agradeço a oportunidade de falar um pouco de rugby e da minha experiência como jogadora. Peço desculpas por eu não ter o dom da escrita. Mas espero que eu tenha ajudado.
Coloco-me a disposição para o que vocês precisarem.
Abraço
Júlia Albino Sardá