Tempos de jogos panamericanos trouxeram pro nosso dia-a-dia e pra página inicial dos portais de notícias um tsunami de imagens em verde e amarelo e chamadas do tipo "Conheça X, a grande aposta do Brasil na modalidade Y". Apesar de infelizmente ainda não termos contado com rugby feminino na última edição dos jogos panamericanos, estamos também a apenas uma semana de um outro torneio internacional sulamericano em que o Brasil estará fortemente representado não somente por clubes, mas também por sua seleção: o Valentín Martínez, que acontecerá no final de semana dos dias 5 e 6 de novembro, no Uruguai. Divulgamos aqui no blog semana passada a lista das 12 convocadas pela seleção, composta por alguns nomes já bem conhecidos e outros não muito conhecidos, mas de igual valor. E se nós, como brasileiras, temos comemorado as medalhas das nossas meninas do vôlei, handball, nado sincronizado (?) e afins, o mínimo que podemos fazer enquanto rugbiers brasileiras é saber quem, afinal, nos representará no Valentín.
Estas meninas não são apenas as "doze melhores" entre todas as praticantes de um esporte no país, muito menos uma imagem blurry em verde e amarelo de um grupo unido por um mesmo objetivo: estas são as meninas que, todos os dias, orientam escolhas em nome de um sonho que não é individual delas, e que também não se restringe ao clube a que cada uma pertence. Estas são as meninas que trocam todos os dias o pãozinho na chapa de manhã por um café da manhã de whey protein. Estas são as meninas que vem, há meses, trocando as baladas de sexta e sábado por dormir cedo pra poder render melhor na academia no dia seguinte. Estas são as meninas que, no mínimo um final de semana por mês, deixam de lado tudo que é querido para a grande maioria de nós (família, filhos, namorado(a), amigos de fora) para ficarem 100% focadas na catarse de atividades que são os treinos da seleção. Cada uma destas meninas certamente merece a "amarelinha" (como disse a Julia Sardá em uma conversa que contarei no blog em um outro momento) mesmo que seja só por ter aprendido e entendido que fazer parte da tal "seleção" é, antes de ser uma escolha do treinador ou da comissão técnica, resultado das pequenas (grandes) escolhas feitas por cada uma delas todos os dias. Por essas e tantas outras razões que não caberiam em um post, vale a tentativa de trazer pro Rugby de Calcinha um pouco de cada uma dessas meninas que tem em comum conosco muito mais do que a coincidência de terem nascido no mesmo país. Não dá pra garantir que todas elas vão conseguir tirar um tempinho da agenda de piques + academia + treinos + concentração pra responder às perguntas, mas vale a tentativa! E, pelo menos uma vez, não vão precisar responder àquelas perguntas do tipo "o-seu-namorado-não-liga-pros-seus-hematomas?".
Começando pela Paulinha, que já é figurinha conhecida aqui no blog e já deu entrevista em outras ocasiões, e dessa vez vai jogar pela seleção com a responsa de ser capitã. Se quiser saber mais sobre ela, curta a página de atleta dela no Facebook (https://www.facebook.com/pages/Paula-Ishibashi/218507024879093) ou siga @p_ishibashi.
RdC: Paulinha, diante do seu extenso histórico de participação nas conquistas da seleção é evidente que foi criado um vínculo muito forte entre você e as meninas que são desse grupo desde o início. Para o Valentin agora vão muitas meninas que estão sendo convocadas pela primeira vez, e você será capitã. Como é para você essa experiência de jogar ao lado dessas meninas que são ótimas promessas para o futuro, essa “nova geração” da seleção, contrapondo com as tantas vezes em que você jogou ao lado de rostos já bem conhecidos?
P: É uma grande responsabilidade, mas antes de tudo, um grande prazer. É um grupo muito dedicado e comprometido, então, fica fácil cumprir minha parte com elas. Todas fazem parte do trabalho que temos feito durante esses anos, na parte da preparação física, técnica, psicológica. Umas com mais "bagagem" outras mais novas, porém, todas com o mesmo foco e sentimento de união entre o grupo. Essa experiência de liderar um grupo renovado, só tem a acrescentar a minha vida no rugby e na vida pessoal também. Estamos confiantes e felizes por todas as oportunidades que tem surgido ao rugby feminino brasileiro, e o Valentin Martinez é só o começo.
RdC: O rugby tem crescido a passos largos no país e o próprio grupo de alto rendimento veio passando por mudanças profundas nos últimos tempos que vem exigindo uma mudança de postura por parte de todas as integrantes, uma “transformação” de jogadoras em atletas que provoca uma série de mudanças em estilo de vida, peso da dedicação de cada uma etc. Essa “vida de atleta” sempre foi natural pra vc? Ou, se não foi, qual foi aquele momento em que você parou e pensou “puts, é isso que eu quero pra mim”?
P: A mudança foi acontecendo a medida que só a força de vontade já não era o suficiente. Era necessário abrir mão de eventos, família, namorado, amigos porque o volume de treinos aumentou e o nível de competição também. Jogar grandes competições com seleções super famosas. Era tudo o que eu e muitas outras sonhavam, então, porque não viver esse sonho de forma real? Para isso, foi necessário trabalhar muito a parte mental, porque o comprometimento envolve perfil de atleta, e ser atleta não é tão simples. Acredito que ainda não temos um perfil de atleta, assim como as modalidades da natação, vôlei, ginástica olímpica, porque as horas de dedicação aos treinos deles, é bem mais intensa e diferente da nossa. Ainda assim, muita coisa mudou e é visível que muitas meninas mudaram seus hábitos e iniciaram um processo de comprometimento muito maior, pois os níveis de competição lá fora, exigem bastante e sabemos que o Brasil tem potencial para isso, portanto, não existe uma receita do sucesso e sim muita dedicação dentro e fora de campo em tudo que envolva perfil de atleta, seja nos treinos/competições/jogos ou no perfil social.
RdC: Independente de exercer a função de capitã agora dentro desse grupo de convocadas para o Valentin, você sempre foi uma atleta referência para todas as meninas que jogam ao seu lado. Eu, particularmente, tenho o privilégio de estar com você em treinos do SPAC e é curioso observar que você parece não cansar nunca (risos). No entanto, todas temos altos e baixos, momentos de desânimo e aqueles momentos em que parece que não dá mais, que chegamos no limite (quando você dá aqueles piques crazy ou está naquele último fôlego dentro de campo). Nessas horas, o que te vem à cabeça e te mantem em pé, qual o pensamento que te dá aquela força pra não desistir, pra continuar além do que vc imaginou que fosse seu limite?
P: O que me dá forças, é ver que outra menina do time também está dando o máximo dela e que embora uma esteja "morta" a outra está sempre zelando pelo sucesso da equipe, e vai dar o máximo dela também, quando vc não estiver mais aguentando. A força vem em várias formas. É olhar no olho da amiga de time, e ver o quanto ela acredita em você, olhar para o banco de reservas e ver que tem gente não se aguentando de vontade de entrar em campo, lembranças que vêm a cabeça como se fosse um filme em retrospectiva, que passa rapidamente na sua cabeça, como se fosse a seleção dos momentos vividos no rugby que te levaram até aquele momento. São esses detalhes que fazem toda a diferença, com certeza. Todo time passa por dificuldades, altos e baixos, vitórias e derrotas. Isso tudo se transforma em força que vem da mente, e essa, ninguém consegue combater. Como costumamos dizer: Eu amo Rugby!rs...isso explica melhor que tudo!
RdC: Você já jogou o torneio diversas vezes, pelo SPAC. Como você descreveria a diferença entre a paixão de jogar pelo seu clube e de jogar pela seleção representando o Brasil?
P: O frio na barriga que sinto jogando pelo SPAC é diferente quando jogo pela seleção. Ainda que a seleção represente o ponto máximo de um atleta, jogar pelo clube é algo que mexe com a sentimento de forma incrível. Sinto que fico muito mais ansiosa quando jogo pelo meu clube. A ansiedade que sinto quando jogo pela seleção, é outra. Não sei explicar, mas são diferentes, embora muitos sentimentos são bem parecidos como o orgulho de vestir a camisa, a garra, a emoção de entrar em campo, etc. Ainda assim, é diferente!!!rsrs...A seleção é uma família nova, porém, muito unida também. Passa pelas situações vividas assim como nos clubes, tudo é vivido intensamente, porque são só aqueles dias, semanas. São lembranças que ficam para a vida inteira, com certeza. O clube é nossa casa, onde convivemos durante o ano todo, é a nossa família com quem discutimos, choramos, damos risadas...é onde tudo dá errado num dia e no outro tudo dá certo!Não sei explicar, mas ainda que sejam sentimentos diferentes, o amor é incondicional.
RdC: E já que falei dessa “abstração”, bom... você esteve em todas as conquistas de sulamericano da seleção, já rodou o mundo jogando, foi campeã brasileira pelo SPAC diversas vezes, eleita melhor jogadora outras tantas vezes... e agora? Qual o próximo sonho seu, individual, no rugby? E qual o sonho PARA o rugby?
P: Meu objetivo é seguir jogando rugby enquanto meu estilo de vida permitir. Hoje eu só estudo e jogo rugby, larguei o trabalho para me dedicar mais ao esporte, porém, estudo a noite o que limitou bastante meus treinos durante a semana com o clube. Mas ao mesmo tempo, descobri que podia ser uma pessoa mais comprometida com a academia, por exemplo, coisa que eu era pouco dedicada, até porque malhar não é uma atividade que eu amo de paixão...rs, mas de ajudou a superar limites que eu achava que já tinham chegado ao fim. Quero fazer parte da seleção enquanto meu perfil for adequado á equipe, e quero servir ao meu clube enquanto meus ossos aguentarem!rs...vou viver rugby mesmo que não seja jogando dentro de campo, porque essa paixão já está fincada no peito e não tem mais como fugir. Não vou dizer aqui, que me vejo lá nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, mas quero muito que até lá eu esteja dentro do perfil adequado para servir a seleção em 100% do meu potencial, porque se não for á 100% creio que não ficaria satisfeita comigo mesma. Portanto, meu objetivo por enquanto, é tudo o que vier pela frente!rs...aproveitar ao máximo, sempre.